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Críticas e outras abstrações cinematográficas Domingo, Maio 20, 2007 Cão Sem Dono (2007) Sem dono e sem final
Ciro, Churras e Marcela, perfeitos em carne e osso Até o Dia em que o Cão Morreu é um livro narrado por um personagem sem nome, que está naquela fase do "agora é sério", de escolher que rumo dar à própria vida. É chegada a hora também de arrumar emprego e cortar o cordão umbilical com a família, mas falta grana e vontade. É nesse marasmo de não saber se casa ou compra uma bicicleta que ele começa a ser perseguido por um cachorro e pela modelo Marcela, que parece estar atraída por ele justamente devido ao desprezo com que é tratada. O mesmo desprezo (ou má vontade) com que trata tudo ao seu redor. Problema é que Até o Dia em que o Cão Morreu é um livro nada cinematográfico. Nas mãos de um diretor incompetente, sua versão para o cinema viraria um passeio por Porto Alegre com narrações em off de um protagonista parecido com aquela hiena da Hanna-Barbera, que vivia reclamando "ó céus, ó vida". Mas o projeto caiu nas mãos de Beto Brant e o diretor soube transformá-lo em filme. Ironicamente, as principais falhas de Cão Sem Dono residem nas partes em que o livro ficou fechado na prateleira e o roteiro não mostrou nenhuma criatividade em completá-lo com um pouco de cinema. O desafio mais difícil, que era transformar a narrativa em primeira pessoa para cenas de diálogos, foi tirado de letra pelo roteiro escrito a três mãos - Marçal Aquino, Renato Ciasca e o próprio Beto Brant -, que deu ainda mais dignidade ao texto de Daniel Galera e a seus personagens. Com diálogos fortes, direção e edição se acanham, e, acertadamente, cedem espaço a um roteiro enxuto e competente que ancora o filme. A escolha do elenco e do cenário também foram acertadas. Julio Andrade conduz Ciro (sim, aqui ele tem um nome) com a destreza necessária a quem leva o filme nas costas. Todos os coadjuvantes - o porteiro, o pai, o motoboy... todos mesmo - estão perfeitos. Mas é claro que os olhos da crítica estão sobre Tainá Müller, modelo que estréia no cinema. Pois Tainá constrói Marcela de forma tão competente que se percebe a importância da personagem justamente na sua ausência. E quando Marcela sai do front a maionese desanda. Com uma história curta em mãos, Ciro teve que ganhar umas cenas a mais e o roteiro não soube o que fazer com seu personagem. O resultado é que uma trama que não chega a ter 90 minutos parece se arrastar por no mínimo 20 deles. Inclui-se aqui a manjadíssima cena do protagonista em uma festinha, presente em 11 em cada 10 películas que precisam encher lingüiça. A falha é perdoável e as cenas de "encheção" não são lá tão ruins, mas infelizmente ninguém lembrou de voltar ao livro no final. Assim, os dois últimos grandes acontecimentos da história acabam sendo narrados com a mesma preguiça cinematográfica dos 20 minutos anteriores. Cão Sem Dono é competente o tempo todo em criar diálogos, mas quando só precisava fazer o óbvio - filmar o que já estava escrito no livro de Galera - ele sonega ao espectador a conversa mais bela do livro, justamente a última. Sem razão alguma aparente, o filme se encerra às pressas, como se fosse uma novela que foi obrigada a terminar sem ter tido o tempo de resolver os conflitos de seus personagens. Uma pena. postado por: Caue de Vargas Fonseca 1:49 AM Segunda-feira, Abril 16, 2007 Um Beijo a Mais (The Last Kiss, 2006) Melhor no epílogo
Braff (esq) e um bando de personagens dispensáveis Costuma ser injusto com o filme original fazer a crítica de uma refilmagem sem as devidas comparações. É com elas, em geral, que se decreta a superioridade dos originais e a gritante necessidade de Hollywood contratar roteiristas melhores em escrever novas histórias em vez de adaptá-las. Graças ao ótimo trailer e à competência demonstrada pelo ator/roteirista/diretor Zach Braff em Hora de Voltar, esqueci o parágrafo acima para analisar Um Beijo a Mais. Fiz questão de não assistir O Último Beijo - o original italiano - antes da refilmagem americana porque acreditei que Zach Braff contaria melhor essa história (e escolheria uma trilha sonora do caralho pra ela), mesmo que o fizesse pela segunda vez. Braff continua excelente, mas Um Beijo a Mais tem um calcanhar de Aquiles chamado Paul Haggis, o roteirista. Haggis é talentoso e seu nome já é grife em Hollywood, mas tem o defeito de concentrar todo seu esforço em um ou dois personagens e lidar com extrema preguiça com todos os demais, tornando-os rasos e maniqueístas. Lembre da família da boxeadora em Menina de Ouro e em 90% do elenco de Crash e comprove. Michael (Braff), pelo seu grupo de amigos - Izzy está arrasado com um pé na bunda, Kenny curte a vida não se envolvendo com ninguém e Chris tem uma esposa que não reconhece mais depois de casado - deveria entrar no site da Cove e comprar uma camiseta. Felizmente, sua história parece ter sido a única que ganhou a atenção de Haggis e é com ela que Um Beijo a Mais sai da mediocridade. Michael tem um relacionamento estável há três anos com a mulher da sua vida, e ela está grávida. É difícil para todos ao redor - e para a platéia - compreender o dilema de quem tem a vida correndo perfeitamente nos trilhos. Mas o quão chato e angustiante isso pode ser fica claro na análise feita pelo personagem sobre a própria vida. "Quando eu era criança e me imaginava com trinta anos, era mais ou menos assim que eu me via". É claro que vestirá saias a possibilidade de mandar a estabilidade às favas e viver loucamente. Até aqui não há novidades, em qualquer locadora se encontra às pencas filmes onde o cara quadradão encontra uma mulher maluquinha que muda a sua vida (em 70% deles ela é a Sandra Bullock). A diferença é que os créditos de Um Beijo a Mais demoram um pouco mais para subir. Dissertando sobre perdão e arrependimento de um ponto de vista masculino sem cair no machismo, o filme finalmente mostra a que veio. Talvez porque consiga, com cenas elegantes e bons diálogos, abordar esses temas com a sutileza que falta em todo o resto da obra. Pena que, a essa altura, o filme já esteja tão perto do fim. postado por: Caue de Vargas Fonseca 2:39 AM Domingo, Abril 01, 2007 300 (idem, 2007) Pra macho
Leônidas meio contrariado com o chamego de Rodrigo Santoro Como o estádio de futebol, o cinema também é um bom palco para ferver a testosterona no corpo. Para esse fim existem filmes que combinam de forma tão exagerada violência, músculos e belas mulheres. Se, além disso, o filme ainda oferecer uma boa história, encenada com fotografia belíssima e orquestrada por um bom diretor, todos na platéia ganham - dos trogloditas aos leitores nerds de quadrinhos. Até a mulherada é capaz de se divertir com o desfile de barrigas-tanquinho que é 300. A lenda sobre o combate heróico entre milhões de persas comandados por Xerxes e os 300 melhores soldados do espartano Leônidas não permite que o filme dê errado. A história é tão cinematográfica que é difícil entender como foi contada em quadrinhos antes da película. 300 é um filhote de Sin City, também uma série de quadrinhos de Frank Miller que foi transposta para o cinema, pelas mãos do diretor Robert Rodriguez. Mas comparando os dois filmes, 300 é muito inferior. A técnica de filmagem em cenários digitais é tão impecável quanto, mas 300 não tem a ousadia de levar a linguagem de HQ para dentro da tela. Sin City é um filme em quadrinhos na fotografia, nas narrações em off, no movimento dos personagens, nas cores e até na inverossimilhança. Quando Marv - o Leônidas de Sin City - soca um adversário, ele voa metros. Já 300 se limita a usar os quadrinhos de Miller como storyboard, mas sua homenagem direta aos quadrinhos aparece apenas nos créditos. Parece uma opção proposital para tornar o filme mais palatável ao público. Não é a toa que o ousado Sin City foi um fracasso de bilheteria (só recuperou seu custo no lançamento em DVD) e 300 um sucesso absoluto. O maior prejudicado com a opção pela linguagem mais realista em 300 é Rodrigo Santoro. Em um universo distorcido da realidade, como o apresentado em Sin City, uma figura de 2,5 metros e voz de trovão seria natural. Como 300 optou pelo realismo, o rei Xerxes parece algo realmente bizarro e fora de lugar. Menos mal que o personagem não é dos mais importantes e que Santoro o representa bem. Na realidade o brasileiro apenas empresta suas feições e seu bíceps a uma figura manipulada digitalmente. Quem também prejudica Santoro é Gerard Butler, que está tão bem como o machão Leônidas que é difícil interpretar uma bichona-louca à altura para antagonizá-lo. Mesmo que ela tenha mais de 2 metros. De resto, 300 não compromete. As cenas de batalha são o melhor do filme por irem na contramão do estilo Gladiador e O Resgate do Soldado Ryan. Em vez dos takes rápidos e das câmeras tremidas, o diretor Zack Snyder usa e abusa da câmera lenta e dos closes. A violência pode incomodar alguns, mas é tão gráfica e banalizada que chega a ser difícil levá-la a sério. Também é difícil levar a sério a fraca trama política inserida na história para encher lingüiça e aliviar, vez por outra, os ouvidos da platéia do tilintar das espadas. Melhor seria cortar a politicagem e limitar os diálogos aos grunhidos, urros e frases de efeito canastronas de Leônidas e sua trupe: "Almocem bem, homens, porque hoje à noite jantaremos no inferno!" Mais machão impossível. postado por: Caue de Vargas Fonseca 2:38 AM Quarta-feira, Março 07, 2007 Perfume - A História de um Assassino (Perfume: The Story of a Murderer, 2006) Fabuloso perfume
Granouille e as ruivas, as mais cheirosas de sua lista Perfume - A História de um Assassino começa contando que Jean-Baptiste Grenouille foi um gênio do seu tempo. Se não entrou para os livros de história é porque a sua arte não é passível de registro. Como o cinema tampouco é capaz de transmitir odores, o filme sobre um obsessivo fabricante de perfumes poderia naufragar facilmente. Surpreende que esse obstáculo tenha sido superado com recursos de direção tão convencionais e que o resultado seja tão bom quanto inusitado. Para admirar Perfume, é preciso entender que se trata de uma fábula - e com todas as peculiaridades do gênero, como o flerte com o realismo fantástico e crueldades assustadoras. É de dar inveja aos irmãos Grimm a história do jovem francês que nasceu sem cheiro próprio e com sensibilidade de perceber todos os demais aromas no raio de quilômetros. Como misturar flagrâncias para criar perfumes de madames era um desafio pífio para Grenouille, a obsessão do adolescente passa a ser achar um modo de capturar para sempre o aroma mais espetacular que já sentiu - o de mulher. Detalhe é que elas morrem no processo, mas se o lobo-mau pode matar criancinhas para fazer mingau, o que impede Granouille de matar virgenzinhas para fazer perfume? Com esse nível de desprendimento ele espalha pânico no pequeno vilarejo francês em que colhe aromas para sua obra-prima. Para fazer o espectador perceber a diferença entre o que fede e o que cheira bem, a direção aposta no único recurso que lhe cabe: quanto mais bela é a cena, mais parece cheirosa. Na escolha das vítimas de Granouille o critério é o mesmo e funciona perfeitamente. Basta mentalizar a imagem da ruiva acima deste texto cortando delicadamente ameixas amarelas. Como uma cena destas poderia cheirar mal? Embora haja pistas por toda a parte, Perfume faz mesmo a sua opção entre o real e o fabuloso quando o criminoso é capturado e o filme volta para sua cena inicial. É a partir do que vem a seguir que muitos espectadores determinarão se gostaram ou não do que assistiram. Quanto maior o desprendimento de quem assiste, maior a chance de se curvar diante de Perfume como os franceses diante de Granouille. O realismo passa a ser um detalhe a ser relevado para um bem maior, assim como a lista de assassinatos do perfumista. postado por: Caue de Vargas Fonseca 3:43 AM Terça-feira, Março 06, 2007 Pecados Íntimos (Little Children, 2006) Mais uma pedra na vidraça
Brad e Sarah: sexo para curar o tédio Depois de Beleza Americana, dificilmente um filme falará com igual competência sobre a podridão dentro das belas casinhas dos subúrbios ianques. Mas alguns chutes no cachorro morto ainda resultam em bons filmes, como é o caso desse Pecados Íntimos, cuja história é um pouco mal amarrada, mas se salva pelos bons personagens e atuações ainda melhores. A trama: alheios ao agito pela mudança para as redondezas de um ex-condenado por pedofilia, Sarah e Brad, que passam o dia tomando conta de seus respectivos rebentos em parquinhos e outros locais públicos, se apaixonam, trepam loucamente e avaliam seus relacionamentos fracassados. O principal problema do filme me fez relembrar as aulas de roteiro na faculdade, em que o professor Giba Assis Brasil dizia que não há problema em usar narração em off, desde que o roteirista não esqueça durante o filme que usou desse recurso. Ou seja, não dá pra usar a narração só quando ele tem preguiça de mostrar o que os personagens pensam usando apenas suas atitudes. Em adaptações literárias, como é o caso, esse erro é comum. Pois Pecados Íntimos erra duas vezes: utiliza narrações lá de vez em quando e onde elas são desnecessárias. É o caso da cena em que a esposa de Brad deixa cair um garfo com a certeza de que encontrará os pés marido trocando carícias por baixo da mesa com uma visitante. Mais óbvia que a própria cena, só a narração de que "Kathy era boa em detectar tensão sexual". Como quem muito explica se complica, a narração faz o filme perder força. Curioso é que o protagonista das melhores cenas do filme - o pedófilo, indicado ao Oscar com toda justiça - não precisa de voz alguma narrando seus sentimentos para mostrá-los. Para deixar claro seu deleite em uma piscina cheia de crianças, por exemplo, basta o movimento de olhos. Pena que sua história seja abordada tão superficialmente em relação às demais. Quanto ao romance central, se salva pelo charme de Kate Winslet, cuja atuação é tão boa a ponto de tornar compreensível alguém querer trocar a Jennifer Connelly por ela. Já Brad é um banana e Patrick Wilson o interpreta bem como tal, mas não tão banana a ponto de aceitarmos o empecilho inverossímil e tragicômico que desvia o caminho do personagem no final do filme e determina o desfecho. Louvável e surpreendente é a opção de Pecados Íntimos por um final meio conformista, quase um anticlímax. Há algo de reconfortante quando o cinema mostra a seu espectador que atitudes drásticas - por mais corretas que pareçam - podem ser tão difíceis na tela grande quanto são na vida real. postado por: Caue de Vargas Fonseca 1:45 AM Sexta-feira, Março 02, 2007 A Rainha (The Queen, 2006) Nem tão magestosa
A rainha e as flores que estava disposta a recolher para a troca da guarda Além da atuação oscarizada de Helen Mirren, Stephen Frears é o diretor de dois dos meus filmes preferidos - Coisas Belas e Sujas e Alta Fidelidade. A priori, sobravam motivos para assistir e gostar de A Rainha. Só que, ao fim do filme, passou pela minha cabeça aquilo que vira-e-mexe deve passar nas de um bocado de críticos e que eles nunca admitirão: "hmm, como vou fazer para elogiar esse filme que todo mundo está gostando se eu vi nada demais?". A atuação de Mirren é de fato bem convincente, especialmente o jeito como fala e caminha com um passinho rápido e as pernas levemente separadas (dez-pras-duas style), mas não senti em nenhum momento aquela dignidade e aquele drama todo que os críticos viram na sua figura. Achei o mesmo que os ingleses logo depois que a princesa Diana morreu: o que custava a rainha ter ficado em Londres e mandado um assessor fazer um discurso bem bonito e comovente logo que aconteceu o acidente? Ok, ok, "ela foi criada para esconder seus sentimentos e manter a postura de rainha". Essa parte eu entendi, mas ter fugido para espairecer e caçar uns veados já é quase um insulto. O filme tem seus méritos. A cena em que um assessor da rainha diz que as flores para Diana em frente ao Palácio de Buckingham atrapalharão a troca da guarda e a soberana simplesmente responde dizendo que tudo bem, ela mandaria retirar as flores pela manhã, é sutil e perfeito para mostrar o descompasso entre a rainha e a coisa toda que acontecia no país. Dias depois aquela pilha imensa em frente ao portão viria a ser umas das homenagens mais bonitas do episódio. O Tony Blair meio constrangido por parecer estar tirando proveito da situação também está impecável em cena. Mas não vai além disso: boas atuações e uma narrativa burocrática tentando enaltecer um drama fácil de entender e difícil de se solidarizar. E outra: cadê aquele conservadorismo todo de 1997 na hora de fazer coisas como nomear David Beckham cavaleiro da rainha? Pelo jeito o funeral de Diana foi a primeira de umas quantas atitudes modernosas organizadas pelo reinado. Autorizar esse filme está entre elas. postado por: Caue de Vargas Fonseca 1:57 AM Segunda-feira, Janeiro 15, 2007 Menina Má.com (Hard Candy, 2005) Reflexão sobre a covardia
Hayley e Jeff: o pedófilo pode ser a vítima? Quem resistir ao péssimo título, vai encontrar em Menina Má.com um thriller como poucos. A trama não podia ser mais simples: Jeff, um trintão, e Hayley, uma adolescente de 14 anos, se conhecem via internet, se provocam um pouco, e decidem se conhecer pessoalmente. O joguinho sutil de sedução continua na casa dele. Ela quer beber alguma coisa com álcool, ele não a impede. Ela o dopa, ele acorda amarrado e aí começa a sessão de uma hora e meia de tortura física e, principalmente, psicológica. Considerando que roteiro original é coisa cada vez mais rara no cinema, Menina Má.com é ainda melhor. O ponto forte são os diálogos, em especial porque a menina Hayley nunca parece perder o controle nessas situações. Chega a ser inverossímil, considerando a idade da protagonista. Mas a partir do momento em que Jeff começa a ser torturado, o roteiro deixa claro que qualquer conhecimento sobre a menina pode ser falso. Idade inclusive. Não bastasse, o filme também é dirigido com elegância. Sabe fazer uso de movimentos de câmeras rápidos e muito, mas muito lentos quando as cenas ficam tensas. O suspense aqui não se dá por medo do que possa acontecer aos personagens, mas pela angústia em querer saber o que vai acontecer na próxima cena. Até porque é difícil saber para qual protagonista torcer. Entre um homem supostamente pedófilo e uma menina certamente sádica ao extremo, os papéis de mocinho e bandido parecem ser trocados cena a cena. Problema é que esse troca-troca cessa no final, e a ambigüidade dos personagens se vai quase de todo. Não que a conclusão do filme seja ruim, longe disso, mas certamente se terminasse de outra forma, mais coerente com o seu desenrolar, o público sairia do cinema com uma sensação muito mais desconfortável e digna de reflexão sobre o que acabou de assistir. No seu desfecho, Menina Má.com opta por ser um bom suspense, mas esquecível. Ok, aqui acaba a crítica do que o filme é e começa a do que eu gostaria que ele tivesse sido. A estrutura narrativa de Menina Má.com é muito semelhante ao excelente suspense Sob Suspeita. O filme é um interrogatório entre o detetive Morgan Freeman e o milionário Gene Hackman, acusado de ser um estuprador e assassino em série de pré-adolescentes. Por fim, as suspeitas do detetive se confirmam: o personagem de Hackman é um pedófilo, e ele acaba confessando os crimes. Só que em seguida o verdadeiro assassino é preso. Ali está um pedófilo confesso, fato que nem o milionário sabia (ou admitia) sobre si mesmo antes do interrogatório. Mas é também um homem inocente, que nunca deu vazão aos seus desejos obscuros e talvez nunca daria. O detetive é obrigado a liberá-lo e fica a sensação de que o melhor teria sido nunca desmascará-lo daquela forma. No primeiro terço de Menina Má.com, parece que o filme irá propor, de forma mais radical, um questionamento semelhante: é justo ser punido por pensamentos que existem, mas que nunca foram demonstrados? Melhor ainda: é justo ser punido pelo que a pessoa é, e não pelo que a pessoa age? O monstro que cada um pode guardar dentro de si deve ser morto para não correr o risco de se libertar, como quase aconteceu no perigoso joguinho de cena no início do filme? A fantasia sexual da menina-mulher, da ninfeta, da colegial, é pra lá de comum no universo masculino. Pipocam na internet sites de garotas de 18 anos consideradas "barely legal", algo como "quase ilegais". A capa da Vip do último mês de dezembro é Stefany Brito: 19 anos e corpo de 16. Poxa vida, o fato de uma mulher completar a maioridade e logo em seguida tirar a roupa enquanto ainda parece menina muda alguma coisa no quão doentio é aquilo que dá aos homens tesão? A própria Ellen Page, atriz que interpreta Hayley, já tinha 18 anos ao fazer o filme, desonerando o espectador de sentir tesão por ela. Na medida que o Jeff vai revelando facetas mais sórdidas, vai também se distanciando do público e o filme, acovardado, perde força. Mas se voltarmos à cadeira em que o personagem acorda - amarrado - depois de seduzir e ser seduzido, a identificação entre Jeff e o público é imediata. E aí, caro espectador, você merece ser punido? Eis o grande temor que deveria ter sido explorado no restante da trama. postado por: Caue de Vargas Fonseca 3:11 AM
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